25 de fevereiro de 2012

Morrer

A poeira cobria a casa com a insistência do tempo. Camadas grossas e perfeitas nos móveis, interrompidas em alguns lugares, denunciando os objetos subtraídos; um quadrado na penteadeira, da caixinha de asseio; uma forma em T onde antes havia a fotografia; um vão arredondado na poeira da mesa da sala, onde ficava a compoteira de vidro. Todo o resto lacrado com o pó de anos acumulados. Pó que era partículas de pele, madeira, unhas, bitucas, de tudo que um dia esteve vivo, aceso, ativo, e jazia desmanchado em cima da casa, lembrando a tudo que se morreria.

31 de agosto de 2010

Fim

Quase não acredito. A força dos fatos me parece maior do que tudo.
Você representa uma larga fase da minha vida. PEquanto meus olhos se enchem de lágrimas, penso que jamais vou esquecê-lo.
A história dos objetos e dos lugares é a história dos homens. A nossa história fica marcada da mesma maneira.
O indivíduo se reflete nos rincões da história e já que eu não posso lhe falar mais diretamente, essa é a única homenagem que posso fazer.
Com a mente cheia de álcool, alucinada em não pensar em você, ainda penso, e penso que as suas digitais estão gravadas no meu corpo, na minha casa, que o solado dos seus sapatos estão impressos nos lugares aonde andamos. Não há como esquecer.
Eu imagino você dormindo, num ressonar intacto, e me ponho a seu lado, como tantas vezes foi.
A única homenagem a esse amor é a palavra, que, entorpecida, como foi de amor, agora é entorpecida de dor.
Queria eu ser Alcoforado, uma freira portuguesa enclausurada, queria eu ter uma desculpa maior, queria eu ter as instituições contra mim, uma guerra ou um obstáculo físico, uma fronteira, para que esse amor terminasse.
Queria eu ter palavras pra lhe agradecer pelas palavras de Vinícius de Moraes terem sido mais do que palavras pra mim, eu, que nem gostava da poesia dele.
Queria eu ter o dom de transformar literatura em arte e lhe fazer uma homenagem tal que fizesse o nosso amor não perecer.

17 de março de 2010

Da Perdida Selvagem

Era só e vivia rodeada. O coração tão só que nem se sentia bater por não ter alteridade. Vivia para os prazeres, as delícias dos dias comuns, as danças, a vaidade, a gula e os outros pecados que, por não terem comparação, não eram pecados.
Um dia a mulher só conheceu um homem solitário.
Ambos na constância de suas vidas.
O homem não fazia diferença na solidão a mulher.
Até que ele começou a não ser mais solitário e mostrou que tinha, e eram possíveis, mais facetas. O homem se alternou e mostrou à mulher a ambiguidade do ser, que pode e não.
A mulher que era simples na sua solidão tornou-se confusa e passou a seguir os passos do homem. Apaixonou-se por ele e fez dele sua única convivência além de si. Como não estava acostumada, fez dele, aos poucos, sua única solidão.
O homem não suportou os olhos famintos a sós com a mulher, não aguentou ser devorado pela obrigação da escolha e abandonou os olhos e seus vazios.
A mulher, então, ficou tão só que sem solidão.

Lépida ode de ódio ao blogue

Achei que você estava morto, que eu não me lembraria de sua senha, dos seus intrincamentos... Achei que seus macetes seriam insolúveis e jamais eu tivesse que revê-lo e descobrir esses segredos feios, sujos e cabeludamente cheios de caspa...
Mas eu o encontrei novamente, justo num dia assim, em que uma resenha acadêmica pela primeira vez me ameaça com seus tentáculos burocráticos weberianos e uma falta de um sanduíche de mortadela me faz louca de tentar de novo adentrar seus intestinos de couro, ó, blogue dos despejos de sucos pancreáticos num duodeno apavorado que é a metáfora dessa minha adolescência que terminou e se prepara para coroar-se em gases e excrementos!!

29 de setembro de 2009

Ao acaso dedicado.*

Não tenho nada mais o que escrever.
Estou num ar com consistência de manteiga e me divido entre milhares de preocupações que não são comigo.
Tenho vontade de voltar todos os dias àquele mesmo em que eu li contos russos tristemente redundantes da manhã à madrugada e fui feliz porque tudo daquilo era emprestado.
Eu era o pobre mujique mas o sofá macio e o abajur de sempre me salvavam de qualquer drama real.
E os dramas eram tão dramáticos e tão bem escritos que eu me envolvia sem medo de parecer ridícula, sentindo o suficiente para me sentir viva sem ter que viver nada daquilo.
Hoje as ficções me parecem ridículas, tão ridículas porque verossímeis demais para o drama real que é experimentado no viver.
Não há a dramaticidade articulada dos livros, dos romances históricos, dos contos de crítica social, das crônicas pessoais. Há um drama que se forma pela incoerência dos atos e dos fatos. Dos dias que morrem sem graça, dos diálogos que acabam sem fôlego e do silêncio que segue por inércia.
O drama da vida é o drama do acaso, dos atos falhos e controversos; Dos telefonemas abruptos e constrangedores, sem assunto nem comodidade; Das notícias que chegam como um tiro no escuro e não nos deixam ver o estrago.

*Também a Eron, Pedro e Pedro.
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11 de junho de 2009

Dia dos Namorados

Ao som de 'I Will Survive', versão de Cake, estou aqui novamente para, desta vez, fofoletemente, desejar a vocês um lindo dia dos namorados.
É, é!
Você não entrou no blogue errado, meu amigo que vaga pelo computador à procura de sacanagens e besteiras. Não vou criticar acidamente mais um empurra-empurra de tradições à comercialização dos seus significados. Não vou ser chata. Vou dizer: Presenteiem-se!, que a vida tem a mesma duração de uma descarga e leva tudo que nos deu prazer ou nos incomodou da mesma maneira.
Não tem um amor? Não tem nem um flerte? Vague pelas ruas como se fosse Carnaval, embebede-se ou use o que for que lhe dê algum prazer. Mesmo que falso, mesmo que momentâneo. Sejamos estetas, sejamos narcisistas, querendo um amor só pra tê-lo e ponto.
O dia depois é o dia depois. A ressaca, a tristeza de ser leviano, de ser bruto só vêm depois e amim não cabem. Eu, hoje, estou um diabinho que atenta cada pouca cabeça que passar aqui a tocar um pedaço de pele desconhecida.
É o que eu desejo a vocês: Que desejem.
Um beijo honestamente babado.

26 de maio de 2009

Pensamento light para um dia fofo

Há muito eu queria dizer umas palavras aqui:
"Confiabilidade", "Segurabilidade", "Sustentabilidade", "Sigilabilidade", etc...

Por que esses termos me dão vontade de bater a cabeça na parede até sangrar?

Porque eu sou uma boba e me importo com essas coisas?
Porque esses termos representam todo um jargão de uma burocracia recursos humanos que eu vejo mais como um jeito de transformar mais ainda as pessoas em boiadas?
Separando-as como se separa o zebu do nelore?
E cria novos gurus do "gerenciamento de pessoas", que "motivam" e fazem "dinâmicas"?

Mmm, talvez tudo junto.
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Mas, ei! Não fique aí parado em frente ao computador! Vamos! Energia! Você pode, você tem o segredo do sucesso! É acreditar fundo em você mesmo, com confiabilidade! Seja um líder, seja um funcionário pra cima, up! Não consegue? Tome umas bolinhas, então, umas anfetaminas... Mas seja feliz! More em um lindo condomínio fechado! Você que é branco e tem suas meias passadas! Isso, isso... Muito bem! Isso é que é um vencedor!
Tá, ok, agora são 3000 reais pela palestra.

21 de maio de 2009

Rapidinha

Estive vendo muitos e muitos filmes esses dias. Lição de casa. Assim como ter que escrever um quase roteiro; Coisa que faço aos trancos e barrancos porque não aceitaram minha bela idéia do pornô pseudomarxista.

Agora vou-me e volto semana que vem. Os créditos na lan house já vão acabar.

11 de maio de 2009

Bobiças

Oras, nem vou falar de Virada Cultural. Deu zica. Vou escrever sobre a minha nova empreitada: um curso de roteiro e direção/atuação para cinema. Não sei que raio de coelho sairá desse mato, mas já é alguma coisa para quem passava os dias todos em casa contando os ladrilhos do banheiro e assistindo a uma porção de filmes. Pelo menos é uma tentativa de ver o lado ativo da coisa. Quando o primeiro curta do qual eu tenha participado estiver pronto, aviso para algum possível leitor ver.
Vou, porém, adiantar uma de minhas geniais idéias para um filme: Um pornô pseudosadomarxista. Começa com o proletariado desnudo, suado e carente a ser brutalmente fodido pelos donos dos meios de produção. O cenário: uma vasta propriedade privada. A burguesia toda assiste a cena, com a satisfação voyeurista dos que vêem o trabalhador se submeter de todas as maneiras. Mas logo começa a reação. A dita dura do proletariado se mostra também muito eficiente e assusta o antes ativo dono dos meios de produção, que, por fim, se deixa submeter e a inversão dos papéis ocorre. O gran finale é a inesperada abolição das classes sociais, na qual tudo é de todos e todos são de todo mundo.

7 de maio de 2009

Sobre o ser e o nada e vice-versa

Olá, inquietos zoófilos, pansexuais, naturistas, ambientalistas, ecologistas e amantes, literais ou não, da natureza em geral. Fiz uns algos nesses dias:

-Fui à Virada Cultural:
Um grande furugundum de shows de artistas meio pop/cult/brega/hype; pseudohippies de classe média com lencinhos sobre os cabelos alisados; maconha a dez reais o baseado; cheiros e mais cheiros, da bosta ao perfume; lixo e mais lixo; mendigos esmagados por multidões empolgadas; e outras coisas bacanas.
Não, séria. Foi minha primeira vez. Na Virada, é claro. E fiquei um pouco desapontada, por minha própria culpa, com tudo que consegui ver. Estávamos em três, namorado, amigo e eu, todos putos em horas distintas por razões diferentes. Primeiro, fizemos "mó merrda", como dizem meus antepassados. Paramos na Trianon, estação que dá na Av. Paulista, por algum motivo obscuro que nem nós mesmos sabíamos, e tivemos que andar minutos e minutos até chegar aos palcos e aglomerações. Mas conseguimos. Como primeira atração, fomos ver o Benito de Paula, que deixou seu filho cantar mal e porcamente uma porrada de músicas, mas nos fez sorrir quando começou fofoletemente a puxar um 'Êêê, meu amigo Charlie Brown'...
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Ai, porra. Esse computador está podre. A tela "pára" e congela de dois em dois minutos e eu não consigo nem continuar direito o que eu estava escrevendo, pirocas! É mandinga de flamenguista!
Vou ver se monto a mula Margarida e acho uma outra lan house lá pros lados do centro da cidade. Adispois eu continuo.

18 de abril de 2009

Boletim Besta de Bosta Nenhuma

Olá, bichas loucas e misóginos de plantão. Ah, não, errei. Achei que fosse a introdução da VH1, aquele canal drag.
Vou contar pra vocês: andei cantando por aí. Tá, tá, sei que todo mundo canta 'por aí'. Eu quis dizer é que cantei algumas (três. ok,ok, duas) vezes para platéias distintas (na significação de diferentes).
Tudo começou quando meu namorado, que é músico e tals, disse: olha, Carol, você canta bonitinho... - Pronto! Eu, na minha megalomania egocêntrica autocentrada egoísta, não percebi que se tratava de uma opinião suspeita e comecei a me imaginar diante de platéias enlouquecidas: Carol Piaf, Carol Mercury, Carol Leão, Carol Garcia Bernal (é...nesse último delírio eu já pensava em outras coisas).
Porque eu sou assim, a partir de um mero elogio ou crítica crio uma densa e complexa ilusão, que depois se esvai por algum lugar da minha cachola - que eu chamo cientificamente de 'ralo da Carol' - e me deixa em depressão por alguns dias ou até eu consumir uma grande e suculenta picanha chiando.

Agora devo ir. Estou numa lan house, minha bexiga está prestes a explodir e não sei de banheiro por aqui. Acho que vou ao mato.

Obs: Este post ruim de doer é dedicado a meu admirador.
Um admirador, oras! Deo gratias!

17 de março de 2009

Paixão

Ontem eu morri mais uma vez quando você cortou a luz da janela com seus ombros todos e eu me virei e vi um vazio onde antes um braço. Você se sentou sem palavra nem reconhecimento de quem eu era e pôs um calcanhar atrás do outro, como fazem as moças, para me dizer que chega, Eulália, a guerra só me deu a falta, e agora que já tenho um pouco de tudo na vida posso me casar com você. Então eu olhei para aquele pedaço de nada que deveria ser sua mão e só vi um vazio tão grande que eu quase pude desenhar a falta que eu sentia de uma carne tampando a parede caiada daquela casa velha. Não pude deixar de pensar aonde iria o anel se nos casássemos e lhe disse para deixar a guerra do lado de fora, com a sujeira do seu sapato no tapete; Que agora rugas se espalhavam pelo meu rosto e meu corpo fazia sombra nele mesmo pelas sobras de pele flácida; Que eu seria o rio seguro depois de uma vida a toda de turbulência, de explosão e isso eu não queria; Que eu só me casaria se eu fosse o seu mar revolto, sua emoção a toda assim como fora sua guerra.
A faca foi você quem pegou na gaveta - tantos anos aquela faca ali - e me pôs na mão deslumbrada previamente pela siceridade do ato.
Um braço ainda quente enrolado em jornal assistiu ao 'Sim, eu aceito' que eu lhe disse sorridente enquanto seu rosto se misturava cada vez mais ao branco das paredes caiadas.