15 de abril de 2008

Argentina III

Ou Argentina II - A continuação.

Acalme-se, Sr. Anônimo, estou aqui. Andei ocupada com coisas de que deveria me envergonhar. Mentira. Eu fiquei, na verdade, brincando com minhas lesmas de estimação, mas queria dar uma de bad girl.

Eu parei na banheira, não foi? Bem, continuo.

Já que perdi o fio cronológico da história, vai, então, o meu louco fio psicológico. Agora, por exemplo, me vêm à cabeça minhas andanças pelas largas praças da cidade, onde eu arranjava pessoas para perturbar e tirar fotos minhas, o que foi completamente em vão, já que perdi todas. Só não foi tão em vão pelos casos em que eu pedi um clique na máquina e acabei ganhando uma conversación e charlando horas a fio com estranhos super-hiperultra estranhos, o que me apetece mais que ficar olhando minha tartaruga depois de tomar seis comprimidos de beserol.
Por exemplo, durante o passeio pelo Delta do Tigre, fiz amizade com uma família de chilenos porras-loucas, que não me deixavam gastar meu dinheiro, riam de tudo e se/me abraçavam o tempo todo. Juntos visitamos a Feira de Antiguidades de San Telmo, que eu já mencionei aqui. Também houve a noite dos garçons, que foi pouco antes do argelino se emputecer comigo. Era lá a última noite que eu tinha em Buenos Aires. Fiz, então, o que toda pessoa normal faria: me arrumei toda, peguei um táxi e comi o melhor bifão da minha vida, acompanhado de uma boteja de vinho que descia como sangue na minha garganta vampiresca. Todos me perguntavam se eu estava sola, sola, sola, tanto que fiquei me sentindo um sapato velho que pisou em cocô de cachorro de madame, mas logo os garçons me fizeram sentir melhor, pois vinham conversar comigo e perguntar todo tipo de coisa, que àquela altura eu entendia hermosamente bem pelo estado ébrio em que me encontrava. Sei que quando saí de lá, tinha dois cartões e um guardanapo com telefones e nomes dos garçons que haviam conversado comigo durante a noite. Manuel, um dos gajos, quer dizer, chicos, chegou-se pra mim e perguntou, "escuta, quantos números de telefones você já ganhou nessa viagem?", e rimos, já que eu estava contente de ser a sula miranda dos garçons e não queria responder que não foram tantos assim.
Depois de sair do restaurante com o trófeu bandeja de ouro e de Manuel me acompanhar até à porta e dizer ao taxista que cuidasse direito de mim, resolvi seguir para Puerto Madero, onde o, Tá, Já contei, argelino quase me matou com uma rosa. Cansada desses caras esquisitos, resolvi ir ao lugar certo pra se escapar de homens: o bar. Lá em Pallermo Viejo, sentei no meu já conhecido Crónico, umas 4 horas da matina, quando um bando de poloneses ameaçou o recinto e o meu sossego. O pior era um careca, que parecia o cruzamento do Tio Chico, da Família Adams, com o Marcos Valério, e que já estava tão bêbado que não conseguia abrir direito os olhos. O dono do bar acabou me contando que todo ano aquele grupo vinha pra Buenos Aires e se instalava no Crónico, era um ritual deles, sei lá, sempre tomavam os mesmo porres e aporrinhavam todo mundo. Mas eram inofensivos; desde que você não os deixasse pingar baba tóxica em você, tudo bem. Saí de lá com o sol nascendo, depois de tomar cervejas por conta da casa e cantar uma porrada de música brasileira com o 'Serjão', maníaco pelo Brasil que era o dono do lugar e, até hoje, troca e-mails comigo colocando cedilha no "você".
Mas bacanóvski mesmo foi o dia da visita ao Cemitério da Recoleta. Eu fiquei tão arrepiada lá dentro, não por medo ou algo assim, o negócio era o cheiro, não digo furibundo - porque apesar dos caixões ficarem expostos, deviam estar lacrados -, era mais uma coceira no nariz, um calor vindo de todas as partes, ui, das paredes, daqueles mausóleus que eram obras de arte. Aquilo me parecia uma ironia das mais sagazes: "Venham apreciar os túmulos, suas futuras moradas". Não tanto pra mim, que o meu medo da morte não é dela, é do depois, mas mesmo pra mim aquilo tinha um quê mórbido delicioso, dava aquela vontade de se perder na morte branca, esculpida e dura das personagens históricas. Consegui, porém, conter minha vontade de morar com o Adolfo Bioy Casares, silêncios sepulcrais são piores que discussão de relacionamento. Foi por pouco, ufa.
Depois desse passeio quase necrófilo, fui conhecer a Biblioteca Nacional e lá passei minha tarde, cheirando e lendo livros, conversando com estudantes empolgados, e até pedi permissão para tirar fotos de lá, das exposições, dos livros mais antigos, que obtive de um moço admirado por eu querer tirar fotos dali apenas como um registro pessoal, de viagem.
Porra, minha viagem pra Argentina já vai completar meses! Por que raios estou ainda escrevendo isso aqui?
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Admito que quase abandonei o blogue. Ontem, porém, aquele terremoto mudou a minha vida. Quando pensei que um grande pedaço do telhado fosse cair sobre a cabeçorra da minha professora de português, e me vi um pouco, er, alegre com isso, percebi que eu devia voltar a escrever estupidez aqui, que isso é como uma buraco de escape para algo malcheiroso.

Bem, agora vou terminar mais um trabalho de faculdade. É um projeto pra divulgar e tentar arrecadar fundos para a reforma do Casarão do Chá. Temos só três dias pra criar plano de marketing, roteiro pra vídeo institucional, modelo de jornal ou revista, campanha publicitária, mascote e o diabo.
Claro que minha maior habilidade é arrecadar somas carolíngeas de dinheiro... Ainda bem que não fiquei com nada de publicidade ou marketing, eu não vendo água pra beduíno.

4 Macumba(s)!!!!:

Anônimo disse...

well, well, well, foi legal tua viagem. vamos ver se combinamos uma outra juntos. estou por aí, nao suma. beijos.

Carol "Mozão" Mendes disse...

Uma viagem com o Anônimo, um estranho que talvez tenha tatuada na nádega direita uma suástica, que talvez goste de estripar blogueiras esporádicas enquanto lê um conto sobre um mui fino senhor que é acometido de uma necessidade deliciosa de enfiar alfinetes no braço da amada?
Tô dentro, hehe.
hasta la vista, beibe.

Anônimo disse...

O que posso dizer? nao sou nada disso. você é quem anda lendo demais essas histórias de carnaval do joao do rio. nao uso máscaras, sou apenas um anônimo. continue assim, garota, beijos.

ogait disse...

Bendito terramoto. Em Português sem sotaque, rogo: continue a escrever, estupidez ou não, que deste lado do Atlântico há quem aprecie. Siga a marinha.